O 'SELVAGEM?' DA DÉCADA DE 90

OS PARALAMAS DO SUCESSO - SEVERINO

Quando os Paralamas lançaram o Severino, eu tinha apenas 9 anos de idade. Mas os mais velhos sempre me dizem que ninguém entendeu nada. A banda que tocava músicas tão dançantes e espertas como "Meu Erro" e "Alagados" de repente virou uma mistura de ritmos 'estranhos', com letras aparentemente sem sentido. É o que a maioria pensou.

Santa ignorância.

Severino, o oitavo disco dos Paralamas, chegava às lojas em uma época particularmente ruim do nosso país. Ninguém tinha dinheiro para nada, a inflação atingia níveis altíssimos e, pior, o rock brasileiro era tido e tratado como morto, ultrapassado, uma onda que passou. A banda, no entanto, continuava sua eterna turnê, sempre tocando, sempre viajando, não importa se havia disco novo a se mostrar ou não. E Herbert, Bi e Barone sempre admitiram que as viagens para lugares esquecidos do Brasil os faziam descobrir maravilhas musicais. É aí que entra o mérito de Severino.

Se Chico Science e Nação Zumbi são considerados a melhor banda brasileira dos anos 90, se O Rappa e suas misturas são (ou pelo menos foram - eu só gosto da fase do Yuka) elogiadíssimos e aplaudidíssimos e se a música nordestina, antes patinho feio, foi alçada à condição de verdadeira música brasileira, tudo isso foi sacado muito antes pelos Paralamas.

Eu ouvi Severino pela primeira vez quando, depois de muito pedir, ganhei de meu pai "A Lata - Pólvora". Foi um dos primeiros discos que eu pus pra rodar - a lata tinha todos, do Cinema Mudo ao Severino. Não entendi muito bem aquelas músicas primeiras, mas me apaixonei por "El Vampiro Bajo El Sol" e, mesmo sem compreender bulhufas da letra, por "Músico", parceria deles com Tom Zé. Me lembro como se fosse hoje que um dia, à tarde, tinha de fazer um texto pra escola sobre a Copa do Mundo. Pus o Severino no meu ultra-moderno som Philips, que tocava CD e aquilo-sim-era-modernidade, e passei a tarde inteira ouvindo o disco, escrevendo, ouvindo, comendo, reparando, voltando música, repetindo outra.

Não vou ficar aqui discorrendo sobre cada uma das canções, nem sobre os instrumentos usados, nem sobre as temáticas, apesar de admitir que é muito tentador. Mas é que numa dessas voltas pela internet eu achei um texto sobre o disco no site Overmundo, que, aliás, foi pensado pelo irmão do Herbert, Hermano Vianna. Não é lá muito bem escrito, vê-se que não foi revisado nem pelo autor nem por ninguém do site, mas a forma como o ineditismo de Severino foi abordado é que me chamou atenção. Sem críticas ('bom' ou 'ruim'), sem comparações com o passado paralâmico ou o futuro. Apenas uma análise de uma obra.

E a conclusão de que, tal qual Selvagem?, Severino estava pelo menos uns 10 anos à frente de seu tempo.

Para ler o texto citado, clique aqui

QUATRO DO CINCO

 

PARABÉNS, HERBERT.

Repito aqui o que escrevi em 2006. A data é a mesma, 4 de maio, e os sentimentos também.

Acho que podia falar do tanto que gosto dele. Como músico. Como guitarrista. Como cantor, como arranjador. Como pessoa, como gente igual a gente mesmo. E como letrista, então?

Do tanto que eu já pirei ouvindo ele. Do tanto que as letras dele me ajudaram a olhar pra frente, a me acalmar ou a me animar a pular mais ainda.

Do tanto que ele consegue fazer "o" som. O som mais bem feito. Mais simples. O som que eu sempre quis ouvir sintetizado em apenas uma banda, uma letra, uma canção. Do tanto que ele é sortudo porque conseguiu o melhor baixista e o melhor baterista pra tocarem com ele.

Do tanto que ser fã dele me ajudou a conhecer tanta gente. Do tanto que qualquer show deles parece curar qualquer angústia. Da superação pós acidente. Da impressionante alegria de viver, que eu pareço perder um pouco a cada obstáculo que aparece, mas ele parece se fortalecer e sorrir cada vez mais.

Do que ele já foi, do que é e do que possivelmente virá a ser. Da obra, das frases, das entrevistas, dos pensamentos, do dia em que ele me deu um beijo e agradeceu por eu ser seu fã.

TRABALHANDO NO DIA DO TRABALHO

 

PARALAMAS - RIO DE JANEIRO - 1º DE MAIO

Os Paralamas tocaram em pleno Dia do Trabalho nos Arcos da Lapa, Rio de Janeiro.

 

O show fez parte de um evento em comemoração ao 1º de maio.

Crédito: Ag.News/Foto:Onofre Veras

É HORA DE VOTAR

PARALAMAS NO PRÊMIO MULTISHOW

Os Paralamas concorrem com o DVD "Rock in Rio - Ao Vivo" no Prêmio Multishow deste ano, categoria melhor DVD.

Clique aqui para votar

Os nossos 'adversários' são:

- "Multishow ao Vivo" - Ivete no Maracanã
- Pitty - "(Des)concerto ao Vivo"
- Zélia Duncan - "Pré Pós Tudo Bossa Band"
- "Cidade do Samba" - Vários

Sinceramente, não dou muita bola pra esses prêmios. Mas é sempre bom ver os Paralamas se dando bem; por isso votei e aconselho vocês a votarem também. Ah! Se forem votar nas outras categorias, reparem nas opções e depois digam se foi muito difícil tanto quanto foi pra mim. Tinha categoria que nenhum artista merecia voto!

PARALAMAS, FREJAT E VANESSA DA MATA - SANTA BÁRBARA DO OESTE - 11 DE ABRIL


Os Paralamas fizeram mais um show ao lado de Vanessa da Mata e de Frejat no projeto que já passou por cidades como Campinas, Sorocaba e Santos. Dessa vez, na última sexta, 11, a banda tocou em Santa Bárbara do Oeste, em São Paulo.

O jornal da cidade, em seu site, deu grande destaque ao show "dos Paralamas". Mas no texto, além de colocar Eduardo Lyra como membro da banda, preferiu falar das barraquinhas de comida do que da apresentação. Só disseram que o show atraiu muita gente. Enfim. A foto é do jornal Diário de Santa Bárbara do Oeste.

Essa foto acima é do fã Waine Ricardo Pertile, da cidade de Americana-SP, que disse ao jornal que acompanha os Paralamas há vários anos. Waine pediu parea um amigo seu, desenhista, fazer um quadro grafitado de Herbert Vianna e seus filhos.

Se não me engano, ele se inspirou em uma foto tirada no prêmio Multishow em que o Herbert foi homenageado pela Orquestra Imperial. O quadro foi entregue pelo fã durante uma coletiva de imprensa concedida pelos Paralamas durante a passagem da banda pela cidade.

DEIXA SÓ EU FALAR UMA COISA

 

PARALAMAS E TITÃS - PORTO ALEGRE - 04 DE ABRIL

 

Já escrevi aqui uma vez que eu só tenho esse blog porque, um dia, eu entrei no Ê Batumaré e decidi que eu também queria escrever como aquela "tal" de Deise.

Alguns anos se passaram, nos tornamos bons amigos - ainda que virtualmente - e, agora, tenho a honra, o prazer a alegria de publicar um texto dela aqui no Na Pista.

Aproveitem; porque se existe alguém que sabe captar bem o que são os Paralamas é esta guria de Porto Alegre.

COM VOCÊS, O RELATO

 

A VIDA ATÉ PARECE UMA FESTA

Texto e fotos: Deise Schell

 

 

Não sei se ainda sei escrever direito, depois do "fim" do Ê Batumaré. Também não sei se ainda sinto as coisas do mesmo jeito, de forma clara, ordenada. Portanto, talvez o relato vá ficar um pouco confuso, talvez até um pouco piegas (acho que às vezes exagero nos sentimentos, mas deixa estar...) e peço mil desculpas por isso.

 

Quando fui pensar em algo pra começar o meu relato, veio na minha cabeça a primeira música executada no show, "Diversão" dos Titãs. Lembrei das duas bandas no palco, o sorriso no rosto de cada um, a imensa vontade e satisfação de estar no palco celebrando nada menos do que 25 anos de carreira. Pensei na alegria do público cantando cada verso, o brilho nos olhos de cada fã, os de 15 ou os com mais de 50 anos de idade. A vida, naquelas duas horas de show, pareceu mesmo uma festa... sabe a sensação de poder tudo acabar um segundo depois, que nada importaria?

Bem sinceramente, eu esperava menos deste encontro dos Paralamas com os Titãs. Acho que não lembrava que os progenitores do "Cabeça Dinossauro" eram tão legais, tão contundentes. Vê-los sem apoio, de forma muito simples, com o Branco Mello no baixo e o Paulo Miklos na guitarra executando "AA UU" foi como retornar a um feliz passado, mesmo que eu não o tenha vivido e mesmo não sendo esta a formação original da banda. "Vital e sua Moto" incluída no set list, sem ser bis, também foi uma grata surpresa. Adoro vê-los, só os três - Herbert, Bi e João -,  parecendo vários. É absurdo.

Eu nem preciso dizer que o Herbert está a cada dia melhor, porque já virou redundância (assim como dizer que o Bi e o Barone detonaaaaram!). Linda a guitarra em "A Novidade", naquele arranjo em que o Tony Belloto toca Slide Guitar. Este momento do show, bem intimista, vai ser digno de assistir no DVD. (continua)

 

Senti muito a falta de músicas do "Longo Caminho" ou do "Hoje": nem "Cuide Bem do Seu Amor e nem "De Perto" entraram no show daqui... mas, tudo bem, tínhamos Fito Paez. E aí teve "Go Back" e "Trac Trac" como devem ser, com a linda voz - e o teclado, no caso da última - do argentino. Lindo, lindo! Por quase não ser mais participação, esqueci de falar do Andreas Kisser (foda, como sempre e com todo o respeito), que tocou "Selvagem" e "Polícia". Entrou o Arnaldo Antunes e aí rola um lance meio máquina do tempo. Ele cantando "Comida" e "Lugar Nenhum" com os Titãs e dançando "arnaldisticamente", com um sorriso que ia de uma orelha à outra, é muito surreal de ver. Depois disso, é só festa com "Sonífera Ilha", "Ska, "Meu Erro", "Óculos"...

 

Uma pena eu não ter conseguido enxergar bem o Barone e o Gavin. A minha estatura não permitia. Rolou aquele duelo solo absurdo no "Cabeça Dinossauro", mas o som do Pepsi on Stage (apesar de estar melhor do que eu esperava) embolou um pouquinho...  A minha empolgação (dançando, cantando, chorando, pulando, tirando fotos, "tudo ao mesmo tempo agora" - opa, os Titãs estão vivos no meu repertório sentimental e eu não lembrava!) - também não permitiram que eu percebesse e guardasse maiores e melhores detalhes para contá-los. Decidi que iria aproveitar como nunca "a festa", já que ela não acontece todos os dias! Foi o que fiz e foi inesquecível. Obrigada Herbert, Bi, João, Tony, Charles, Sergio, Paulo, Branco, Arnaldo, Andreas e Fito. A maior e melhor banda de todos os tempos, da última semana...

 

P.S.1: antes havíamos encontrado os meninos no aeroporto (eu, Letícia e Jeferson). Seguem as fotos. A Lê ainda foi recompensada por todos os seus esforços nestes muitos anos como fã dos Paralamas: foi com eles na passagem de som e tudo. Merecidíssimo! Agradecimentos especiais: Lê e Jeferson, pela loucura e amizade compartilhada; Murillo, pela gentileza, simpatia e "queridez" de sempre; Herbert, Bi e João, pela paciência e por ainda nos presentearem com estes momentos de música e celebração.

P.S.2: quando falo do passado dos Titãs não é por puro saudosismo, é por não gostar muito dos últimos trabalhos mesmo (e isso é bem pessoal). Respeito, muito, todos eles, de coração. Falando em passado/presente/futuro, os Paralamas entram em estúdio em junho para gravar o novo cd, segundo o Bidu. Já estou ansiosa por este disco e a nova turnê! 

RARIDADE

 

HERBERT FALA À REVISTA VEJA EM 1985

 

 

 

Em janeiro de 1985, os Paralamas fizeram dois shows fantásticos no Rock in Rio e, como sabemos, tomaram o posto de maior banda de rock do Brasil pra nunca mais sair. Um mês depois, no pós-parto da explosão do evento, Herbert Vianna concedeu uma entrevista às páginas amarelas da revista Veja. É interessante analisar os contrastes entre o Herbert da entrevista (aos 23 anos) e o Herbert de hoje – enquanto muita coisa permanece a mesma, como os maneirismos da fala (colocar “super” na frente de um adjetivo sendo um deles), muitas opiniões mudaram e muita coisa o tempo se encarregou de contradizer (em determinado momento da entrevista Herbert fala que os grupos da época traduzem bem a juventude brasileira, mas um ano depois ele lançaria “Selvagem?” e afirmaria em entrevistas Brasil afora que o rock nacional puxa demais o new wave em termos sonoros e visuais, esquecendo das raízes musicais brasileiras).

 

Pelo caráter histórico do material e pelas novas curiosidades, disponibilizo esta entrevista aos leitores do blog graças ao dono dele, o xará Edu Lemos, mais novo parceiro paralâmico.

 

Agradeço a ele, a quem ler e, é claro, espero que gostem!

 

Eduardo Paulo, Florianópolis - SC

RARIDADE

 

PARTE I

O SUCESSO POR TRÁS DAS LENTES

O líder do conjunto Os Paralamas do Sucesso não se impressiona com a fama e acredita que já existe um estilo de fazer o rock brasileiro

 

Apesar do astigmatismo, da miopia de 1,75 grau e do ar desajeitado, a queixa que Herbert Vianna tornou célebre – “as meninas do Leblon não olham mais pra mim (eu uso óculos)” –, cantada por seu grupo Os Paralamas do Sucesso, deixou de ser verdadeira.

 

Ele não só se tornou um ídolo nacional com seus companheiros de música como ainda conseguiu atrair a atenção de Paula Toller, do conjunto Kid Abelha, com quem se mudou há menos de uma semana para um tranqüilo apartamento no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro. Filho de um coronel da Aeronáutica, nascido em João Pessoa, Herbert Lemos de Souza Vianna, 23 anos, não parece perturbado com o inesperado sucesso que chegou com o estouro da música “Óculos” nas rádios de todo o país e depois da bronca que deu nos metaleiros que durante o Rock in Rio maltrataram os artistas brasileiros que precediam as apresentações de heavy metal.

 

Agora ele é cercado continuamente por admiradores e compromissos profissionais, mas não se altera: “Antigamente tudo era muito calmo. Agora as coisas correm mais do que eu. Mas, dentro do possível, procuro manter uma vida normal, indo ao cinema, saindo com os amigos e até fazendo as compras da casa”, diz ele. No ano passado, Os Paralamas do Sucesso fizeram 120 shows por todo o país porém só depois do Rock in Rio, onde suas apresentações foram triunfantes, é que o cachê médio do grupo mereceu uma subida, de 6 milhões para 10 milhões de cruzeiros por apresentação. “Hoje eu ganho pra comprar as guitarras de que gosto e para viajar”, diz Herbert Vianna.

 

Mas o que mais o anima nesta ascensão, disse ele a VEJA na semana passada, é que se torna cada vez mais remota a chance de precisar voltar à faculdade de Arquitetura ou procurar outra maneira de ganhar a vida. “Se tudo der certo, nunca mais volto para aquele martírio. E acho que não vou mais parar como músico.”

 

VEJA – Com que idade você começou a usar óculos?

HERBERT – Mais ou menos com 12 anos, por ser míope e ter um pouquinho de astigmatismo.

 

VEJA – Sem óculos você enxerga alguma coisa?

HERBERT – Muito mal. Apesar de só ter 1,75 grau de miopia em cada vista. O astigmatismo principalmente à noite dificulta muito a minha visão. Para ler de perto e ver televisão, tudo bem. Mas para ver coisas de longe e ler as letrinhas das legendas do cinema é fogo.

 

VEJA – Você acha que as mulheres discriminam os homens que usam óculos?

HERBERT – Lembro do meu tempo de escola, quando ainda não usava óculos. Sentia que as garotas não olhavam para os meninos que usavam óculos, porque eles eram os estudiosos. Não eram como os garotos malandros, do fundo da sala, que, não sei por que, nunca usam óculos.

 

VEJA – Como é a história do sucesso da sua música “Óculos”?

HERBERT – A música surgiu da frase “por trás dessa lente também bate um coração”, que achei muito boa. Isso significa que ali tem uma pessoa legal, que merece ser conhecida. Isto também se misturava com a sensação que eu tive quando cheguei ao Rio, quando não conhecia ninguém.

 

VEJA – Então foi difícil para você trocar Brasília pelo Rio?

HERBERT – Achei o Rio uma cidade muito fria, onde as pessoas não fazem questão de conhecer as outras e não conhecem nem mesmo os vizinhos. Fui até pegar onda para ver se fazia amizades mas passava mesmo o dia dentro de casa, tentando melhorar na guitarra, porque não tinha amigos nem nada.

 

VEJA – Hoje você tem complexo de usar óculos?

HERBERT – Não. Até aconteceu uma coisa engraçada depois do sucesso da nossa música. Um grupo de psicanálise me convidou para uma mesa-redonda sobre o trauma de usar óculos. Não fui, pois, se meu problema fosse usar óculos, eu colocava lentes de contato. Quanto à música, ela não é sobre esse trauma de usar óculos, mas o trauma da rejeição que a cidade grande me causou.

 

VEJA – Como é a sua vida agora, depois da explosão dos Paralamas do Sucesso?

HERBERT – As coisas mudam quando entramos nesse circuito de música, porque conhecemos muitas pessoas parecidas. E é lógico que agora meu telefone não pára de tocar.

 

VEJA – E você mudou também?

HERBERT – Eu tento manter certa privacidade para não perder o controle de minha vida pessoal. Sei quem são os meus amigos, as pessoas com quem convivo por causa do meu trabalho e os aproveitadores. Sei distinguir muito bem essas coisas.

 

VEJA – E os problemas que a fama traz?

HERBERT – Acho que todos querem tentar travar contato com a pessoa que elas viram em público. Tem um garoto que liga para mim e diz: “Eu quero ser seu amigo. Você é muito legal”. Ora, ele nem me conhece, eu posso não ser um cara legal. Posso não ser nada.

 

VEJA – De qualquer modo, o público tem uma identificação muito grande com você...

HERBERT – Acho que as letras do grupo têm a capacidade de pegar a garotada – os surfistas, os punks e os new wave. Isso porque eu era tudo isso meio misturado e o meu pensamento é um pouco parecido com o deles. Assim fica muito mais fácil a comunicação tanto nas músicas quanto nos shows.

 

VEJA – Suas músicas falam por você. Quais são suas idéias?

HERBERT – Sou um pouco interessado por tudo. Até por astrologia, por exemplo, embora não tenha muito conhecimento do assunto. Também me interesso por espiritismo. Mas o que realmente me interessa são as pessoas e a complexidade delas. O que eu uso na música, eu tiro por mim – minhas reações vivendo numa cidade grande e com a idade que tenho.

 

VEJA – Como era a sua vida em Brasília?

HERBERT – Brasília não tem cultura própria, é uma cidade diferente. É uma mistura de gente que veio do Rio, de São Paulo, do Nordeste. Mas por isso mesmo é uma cidade propícia a captar as coisas. Qualquer novidade lançada nesse solo tedioso frutifica. Além do mais é uma cidade com facilidade de importação de coisas. Como todo mundo ou é militar ou é diplomata, há sempre muita informação e facilidades.

 

VEJA – Foi lá que você começou a tocar?

HERBERT – Tocava desde pequeno, mas em Brasília comecei a aprender violão com um professor de bossa nova. Na mesma época começou a aparecer o Alvin Lee e o Jimmi Hendrix e desisti da bossa nova. Ganhei uma guitarra de meu pai e comecei a treinar.

 

VEJA – Mas em Brasília você participava de algum conjunto?

HERBERT – Eu estudava. Vim para o Rio fazer vestibular para Engenharia e nas horas vagas, exatamente porque não conhecia ninguém no Rio, passava nove horas tocando guitarra. Em 78 chegou ao Rio o “Bi” (Felipe Ribeiro, baixista do grupo), que vinha estudar Zootecnia. Eu disse a ele: “Compra um baixo e começa a tocar que aqui não tem nada para fazer. É só ir à praia e tocar”.

 

VEJA – O conjunto nasceu assim por acaso?

HERBERT – Foi uma coisa natural. Bi desistiu do curso dele, eu também me desiludi com a Universidade Federal, onde fazia Arquitetura, e então começamos a tocar.

 

VEJA – Em que ano você estava?

HERBERT – No último ano, faltando apenas quatro cadeiras para terminar o curso. Se Deus quiser, nunca mais volto para aquele martírio.

 

VEJA – Como a família reagiu a essa decisão?

HERBERT – Para meus pais, eu deveria continuar a estudar, mesmo depois de ter resolvido ser músico. Eles nunca foram contra a idéia de eu ser músico mas tinham medo de que desse errado. Agora que deu certo, eles deliram.

 

VEJA – Como surgiu o nome Os Paralamas do Sucesso?

HERBERT – Nós fazíamos músicas absurdas, engraçadas, bem teatrais e o nome tinha de ser bem estapafúrdio. Quando o Bi inventou o nome, nós achamos ridículo. Não dizia nada. Mas nos acostumamos com ele.

 

VEJA – Tocar nas danceterias ainda é condição indispensável para um grupo tornar-se famoso?

HERBERT – Tocar em danceterias é muito bom. É uma prova de fogo. As pessoas estão muito perto. É um público selecionado, não é o público que vai a um Maracanãzinho para ver um show variado e se contenta com muito pouco. Mas na danceteria é preciso ganhar a galera ali no muque mesmo. Se não for legal, você pode tocar no rádio, fazer o que quiser, que vai ganhar vaia.

 

VEJA – Para ganhar o público hoje todo conjunto precisa ser um pouco teatral?

HERBERT – Acho que nada disso é gancho obrigatório para o sucesso. Vejo grupos que têm um sucesso verdadeiro com características muito diferentes. Eles não precisam ser semelhantes para o público gostar deles. Acho que nós somos diferentes do Kid Abelha, que é superdiferente do Barão Vermelho, que é muito diferente do Lobão e os Ronaldos, que por sua vez não tem nada a ver com o Ultraje a Rigor. Os grupos que pegam os estereótipos prontos são apenas aqueles que as gravadoras tentam empurrar, que precisam lançar um compacto de três e três meses para se manter, mas ninguém vai se interessar por eles ao vivo.

 

VEJA – Como foram as turnês do grupo nessa última temporada?

HERBERT – Ninguém tem idéia do que é fazer um circuito pelo interior do Paraná ou mesmo de São Paulo, sem ter ido lá. As pessoas não sabem o que é um monitor, o que é retorno de voz pro músico, que uma bateria precisa de microfone. Nesse esquema de correr o país nós fizemos 120 shows no ano passado, o que dá uma média de três por semana – é uma loucura.

  

RARIDADE

 

PARTE III

VEJA – Vocês tinham um esquema de empresário para esse percurso todo?

HERBERT – Nosso empresário nunca tinha sido empresário de nada, era um amigo nosso de faculdade que a gente convidou para atender os telefonemas. Então, tudo o que precisamos aprender já aprendemos com o pé na estrada. Hoje nós já estamos num estágio mais profissional.

 

VEJA – No início do grupo, vocês tinham problemas até para ensaiar. Como foram essas aventuras?

HERBERT – É que o apartamento onde ensaiávamos era em Copacabana e a vizinhança toda reclamava do barulho. Depois que ficamos famosos, o síndico foi pedir autógrafos, até as filhas do síndico nos adoram. Mas nisso também deixamos esse esquema tão amador. Agora a gravadora nos dá um estúdio para nossos ensaios.

 

VEJA – A experiência do Rock in Rio influenciou de alguma maneira os novos rumos dos Paralamas?

HERBERT – No sábado 19 ainda estava acontecendo o Rock in Rio e a gente já estava tocando no Mauá de São Gonçalo, do outro lado da Baía de Guanabara. Quer dizer, voltamos muito rápido à realidade nacional. Na verdade, não tivemos muito que aprender no Rock in Rio, o que a gente precisava aprender foi descoberto na estrada, nesses lugares em que a gente tem que fazer shows em condições precaríssimas.

 

VEJA – Você acha que houve troca de experiência com os grupos internacionais? Vocês tiveram algum ganho?

HERBERT – Honestamente, eu não vi nada de mais. Primeiro porque, para mim, os grupos que vieram eram todos superdecadentes. Eles lidam melhor com o equipamento, só isso. Melhores do que os brasileiros eles não são, porque eles não têm seis dedos na mão, têm cinco igual à gente. Para mim, o melhor guitarrista do festival foi o Armandinho, do Moraes Moreira. Ele destruiu ao vivo. O mais falado foi o Angus Young, do AC/DC, mas na verdade acho ele um mão dura.

 

VEJA – Já existe um jeito brasileiro de fazer rock?

HERBERT – Acho que o estilo brasileiro de fazer rock é muito próximo do estilo brasileiro de fazer samba, que é uma coisa meio Bezerra da Silva, meio Moreira da Silva, uma coisa rápida, do dia-a-dia.

 

VEJA – Então a fonte de inspiração do rock brasileiro são os temas do cotidiano?

HERBERT – Sim, e eu acho que os grupos brasileiros de rock fazem o retrato da juventude brasileira com a máxima fidelidade.

 

VEJA – Por que você acha que o rock venceu no Brasil?

HERBERT – A música brasileira em geral estava parada e repetitiva. Fora certas experiências como as de alguns artistas paulistas de vanguarda, não havia nada de interessante para essa garotada a quem o rock se destina. Havia um espaço vazio e o marasmo geral, com todo mundo praticamente reeditando todo ano um disco igual e com as mesmas fórmulas. De repente um grupo como a Blitz e artistas como Ritchie e Lulu Santos fizeram sucesso e pegaram um público muito grande. Foi então que as gravadoras ficaram preocupadas: o que haverá por trás disso?

 

VEJA – Então foi uma questão de os grupos surgirem no momento certo?

HERBERT – Já havia sinais dessa explosão. Em 1982/83 o Circo Voador, no Rio de Janeiro, já era uma coisa superefervescente, com seis grupos tocando por noite para um público alucinado e a Rádio Fluminense tocando as fitas dos grupos. Isso tinha que crescer.

 

VEJA – Quando você fala de experiência da vanguarda paulista, a que tipo de trabalho está se referindo?

HERBERT – A músicos como o Arrigo Barnabé, Itamar Assunção, grupos como o Premeditando o Breque e o Língua de Trapo, que é um barato superlegal.

 

VEJA – Como você vê o trabalho atual de compositores como Milton Nascimento e Chico Buarque de Holanda?

HERBERT – Gosto muito do Chico, muito mais do que do Milton. As letras do Chico são excelentes. Um outro compositor de quem eu gosto muito é o João Bosco, mais até que dos dois. Para mim, o João é um dos maiores letristas e poderia estar fazendo rock perfeitamente, porque as letras dele são geniais e têm muito a ver com um lance superbrasileiro, da linguagem e do palavreado. Há também outros artistas de que eu gosto, como Alceu Valença e Paulinho da Viola, de quem eu gosto muito, Agora, no caso do Chico, ele tem o bom senso de achar que, quando não tem nada a dizer, não tem que gravar.

 

VEJA – Como andam as vendas do grupo atualmente?

HERBERT – Nós vendemos 5 000 cópias do nosso primeiro disco, “Cinema Mudo”, e hoje, com o mais recente, já estamos na casa das 50 000, que era uma coisa que nenhum de nós sonhava. Sempre desejamos isso, mas na prática achávamos que era impossível. Era preciso um sucesso de rádio muito grande ou que acontecesse algo como o Rock in Rio, que fez o grupo sair de um sucesso relativo, de Zona Sul classe média, para ser um grupo de sucesso popular como hoje está começando a acontecer.

 

VEJA – Como você vê o consumo de drogas?

HERBERT – Sou uma pessoa que não fuma, não bebe, não toma drogas e me considero supersaudável. Sempre fui muito saudável, sempre fiz muito esporte. Nunca senti necessidade de drogas, mas não recrimino quem usa, não. Acho que cada pessoa sabe bem o que está fazendo e sabe onde lhe aperta o calo.

 

VEJA – Com a repercussão que os Paralamas do Sucesso tiveram depois do Rock in Rio, o cachê do grupo aumentou?

HERBERT – Cachê no Brasil é uma questão de procura e oferta. Os Paralamas não têm cachê fixo mas em média estávamos ganhando 6 milhões de cruzeiros por show. Agora estamos recebendo cerca de 10 milhões por apresentação.

 

VEJA – Hoje você ganha bem?

HERBERT – Ganho o suficiente para comprar as guitarras de que gosto e para viajar. Passei o Natal em Nova York. É uma grana razoável, mas não sei se é justa. Acho inclusive que deveria ser mais, por causa dessa coisa de direito autoral.

 

VEJA – Você agora forma com a cantora Paula Toller, do Kid Abelha, uma espécie de Casal 20 do rock nacional. Há casamento à vista?

HERBERT – Este é um mistério para Kid Vinil, o herói do Brasil, responder! Mas, falando sério, acho que essas decisões da vida pessoal não devem cair no domínio público. Senão as pessoas começam a viver os problemas da gente e isso não é bom.

 

VEJA – Os Paralamas do Sucesso têm planos para o Carnaval?

HERBERT – Eu, pessoalmente vou ficar em casa, tocando violão, pretendo botar uma rede na varanda para ficar olhando o céu e conversando com a Paula. Não gosto de Carnaval no Rio, acho a festa artificial e superplanejada. Nasci em João Pessoa. Quando vou para lá, fico com meus primos batucando na rua e fazendo samba com eles. É esse o meu espírito de Carnaval.

 

SOLDADOS DO ORKUT

 

O BOM DE VIVER É TER AMIGOS

Os Paralamas são conhecidos por serem, além de tudo o que já se sabe, pessoas simples, simpáticas e acolhedoras.

Talvez por ser uma extensão da banda, assim também são os fãs paralâmicos.

Esta semana e a passada foram de extrema alegria para 400 membros da comunidade "Os Paralamas do Sucesso [nova]", criada por Deise Schell, do melhor blog sobre a banda já feito até hoje (Ê Batumaré) e gerenciado por ela mais três caras: Everton Kogin, Ademir Branco Júnior e este Eduardo Lemos que vos fala.

Os poucos membros (a "outra" tem mais de 70 mil) não reflete, porém, a qualidade do que se faz por ali. Vídeos antes inimagináveis de se encontrar na internet agora podem ser vistos, revistos, gravados, transformados por conta da atuação primorosa de Ademir e do Ian, um cara gente fina e superativo na comunidade.

Abaixo, os links separados de cada show.

Se aparecerem novos vídeos, vou atualizando aqui.

Agradeçam a eles, prestigiem a comunidade e aproveitem!

Tem cada raridade...

PROGRAMA LIVRE [por Ademir Junior e Ian Viana]

Selvagem

Até quando esperar

Depois da Queda, o Coice

Vamo Batê Lata

SHOW HEY NA NA [por Ademir Junior e Ian Viana]

Por Sempre Andar

O Amor Não Sabe Esperar

Lanterna dos Afogados

Caleidoscópio

LUAU MTV [por Everton Kogin]

Eu Quero Ver o Oco

Só Pra Te Mostrar/Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim

Caleidoscópio

CLIPES [por Everton Kogin]

Busca Vida

A Palavra Certa 

RADICAIS

 

PARALAMAS NA SPORTV

Herbert, Bi e João estiveram no programa Zona de Impacto, da Sportv, esta semana. Junto com os Titãs, os três falaram sobre a turnê das duas bandas, contaram alguns causos engraçados e anunciaram duas novas capitais como destino do show em conjunto.

Vale a pena conferir, dei boas risadas e fiquei sabendo de histórias que não conhecia.

Para ver, clique aqui.

NO AR

 

ESPECIAL PARALAMAS E TITÃS II

Clique aqui para acessar

CONTAGEM REGRESSIVA

 

ESPECIAL PARALAMAS E TITÃS

Os Titãs e os Paralamas se juntam, mais uma vez, neste sábado (26) para a gravação do DVD da turnê que as duas bandas apresentaram por Sorocaba e Belo Horizonte, em outubro, e Salvador e São Paulo, em novembro.

Desta vez, as participações serão de Arnaldo Antunes, Samuel Rosa e Andreas Kisser. Há a expectativa de que a turnê passe, ainda, por outras capitais do país. Entre elas, Porto Alegre, que 'perdeu' o show porque os Paralamas foram abrir para o Police, no já histórico show do Maracanã.

Como disse Sérgio Britto, a turnê não teve lá a divulgação esperada. Mas não precisou disso para lotar as cidades por onde passou e levar o público ao delírio. Presenciei somente o show de São Paulo e posso dizer seguramente que a união das duas bandas em um mesmo palco é de uma força sobrenatural.

O Blog Na Pista estará no Rio de Janeiro no dia 26 (juntei cada moeda para poder presenciar este dia histórico). No domingo, se a viagem de volta - direto depois do show - não cansar muito, prometo contar tudo aqui. Fiquem ligados, também, no site oficial, que terá material exclusivo da gravação, inclusive dos bastidores.

Por falar no site oficial, está no ar uma seção mais do que especial da turnê entre Paralamas e Titãs.

Tem também entrevistas curtas e bacanas com Arnaldo Antunes e Marcelo Camelo e, inclusive, um "causo" envolvendo o compositor dos Los Hermanos

Para ver, clique aqui.

Fotos: Rafael Michalawski e Paulakorosue

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